A cidade contemporânea é cotidianamente marcada pela sobreposição de usos que configuram uma paisagem urbana em constante transformação, continuamente composta e recomposta no dia a dia, configurando-se como instrumento ativo na formação da cultura de um lugar (Corner, 1999) e revelando vestígios históricos e formas de apropriação do espaço público. Nesse contexto, a paisagem gráfica (Till, 2014) constitui um campo estratégico para compreender as dinâmicas urbanas e as manifestações espontâneas e efêmeras produzidas pelos habitantes. Espaços de circulação e sociabilidade, como parques, tornam-se territórios essenciais para observar a convivência entre permanência e transformação.
É nesse cenário que a pesquisa se insere, investigando procedimentos metodológicos de registro, interpretação e comunicação da paisagem gráfica. A partir do diálogo colaborativo entre Urbanismo, Design e Computação, numa prática reflexiva (Schön, 1983), a pesquisa articula linguagens e ferramentas para a leitura e documentação da memória coletiva (Halbwachs, 1990) do espaço público, concretizando-se na criação de uma experiência virtual imersiva do Jardim de Alah, histórico parque da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Área tombada, tem sido fruto de muitas discussões sobre sua função e, muitas vezes, também vem sendo questionado seu abandono pelos órgãos públicos. Recentemente, há um projeto para sua reformulação em curso, o que provavelmente modificará de modo radical a forma e usos atuais.
No sentido de proporcionar uma experiência sobre o lugar, um ambiente digital foi desenvolvido durante a pesquisa de pós-doutorado de Joy Helena Worms Till (2022/2024), denominada Paisagem Gráfica da Cidade – uma narrativa virtual interativa, sob a supervisão da profa dra. Rita Maria de Souza Couto, no LIDE (Laboratório Interdisciplinar Design Educação), vinculado ao PPG Design (Programa de Pós-graduação em Design do Departamento de Artes & Design) da PUC-Rio. Nele, buscou-se proporcionar aos visitantes camadas múltiplas de sentidos, simulando um caminhar pela área, por meio de imagens e micronarrativas produzidas ao longo dos últimos anos. Foram explorados diversos modos de interação e níveis de imersão, de modo que o interator pode circular por diferentes períodos temporais correspondentes às imagens e relatos exibidos na plataforma, seja em telas de computadores e dispositivos móveis ou fazendo uso de óculos de realidade virtual, assim incentivando a observação dos espaços urbanos e a reflexão sobre suas constantes transformações.
A partir de 2025, a pesquisa vem se aprofundando em um segundo pós-doutorado, agora no LAURD (Laboratório de Análise Urbana e Representação Digital), vinculado ao PROURB/FAU-UFRJ (Programa de Pós-graduação em Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ), supervisionado pelo prof. dr. Naylor Vilas Boas. Nesta nova etapa, denominada Jardim de Alah – um passeio virtual a serviço da memória de um lugar, pretende-se ampliar a coleta e compartilhamento das memórias afetivas da área; realizar o aprimoramento das funcionalidades do espaço virtual previamente construído; criar um website permitindo outras possibilidades de explorar o conteúdo oferecido e dar continuidade ao compartilhamento da metodologia por meio deste site, de modo que se possa estimular sua aplicabilidade em outros contextos e ampliar os olhares sobre nossas cidades.
Aqui, reunimos o processo de investigação desde 2022, realizado com o suporte de um grupo interdisciplinar, composto, em diferentes temporadas, pelos alunos do departamento de Artes & Design (PUC-Rio): Ana Carolina Cerqueira, Giulia Souza, Julia Moreira, Julianna Lemos, Lito Kemper, Maria C. Moreno da Costa, pela doutoranda em Urbanismo no PROURB | FAU UFRJ, Diana Amorim e pela aluna da FAU UFRJ, Ana Julia Sathler, a quem agradeço profundamente.
Joy Till | março 2026
